Ainda sobre a perfeição e a exigência

Na última semana mergulhei em águas que eu havia deixado no mês de Dezembro, mês de morte e renascimento para mim. Apesar de já ter vivido isto umas quantas vezes, continuo a surpreender-me porque ingénua e secretamente pensava que já não tinha de lidar mais com elas. Então a última semana foi dolorosa e senti-me obrigada a silenciar a minha voz e a de certa forma recolher-me com esta dor que se apresentava.

Enquanto tentava gerir todas as emoções que me surgiam ia-me cobrando produtividade em termos de trabalho, reactividade em termos de estado emocional e perfeição no geral. A general voltou à carga e com muito mais força do que antes e eu lá fui tentando passar pelos dias, pelas horas, pelos minutos. A minha cabeça disse-me vezes sem conta que eu não estava a fazer nada, que eu não deveria estar a sentir-me assim e que nada daquilo fazia sentido e a cada pensamento eu sentia-me afundar um pouco mais na raiva e na pena de mim mesma.

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Mas como nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, esta experiência trouxe-me mais aceitação e mais compreensão acerca de como funciono e de como tantas e tantas vezes me saboto. Como talvez tu, que estás a ler este texto também o fazes. Fez-me pensar em como nos é exigido desde sempre sermos perfeitos e não sentirmos dor ou fragilidade. “Sê forte”, “estás a chorar para quê?”, “chorar é para os fracos”, “não tens razões para te queixares” e etc, etc, etc e tal. Quando a produtividade é apenas medida em termos de trabalho físico e intelectual e o lado emocional é relegado para último plano, o resultado disso são adultos em desiquilíbrio e desconectados de si mesmos, com maturidade emocional de crianças de 5 anos que passam grande parte da sua vida a pensar que algo de errado se passa com eles. Ou então talvez tenham a sorte de não pensar e de um dia acordarem sem vontade de saír da cama e serem rotulados de depressivos, receberem uma receita com medicamentos que ao invés de os deixar sentir os adormece ainda mais e o ciclo perpetua-se.

Aprendi que há momentos em que é preciso calar e chorar, recolher e sentir. O momento passa e vivemos outro momento e passados uns tempos volta outro momento de silêncio, choro, recolhimento e sentir. E não há nada errado nisso. O importante é não desviar o olhar ou fechar os olhos, o importante é assumir o que se sente e seguir com a corrente que se apresenta a cada momento e aí aprendemos a navegar os nossos mares interiores e seremos capazes de desbravar mares nunca dantes navegados.

Na semana passada a vida era monocromática, esta semana está feita num arco-íris em que tudo é possível, o meu coração está ao alto e como um farol está a mostrar-me todos os caminhos possíveis. Aceitar que a vida é feita de contrastes é difícil mas importante. Perceber que a luz do farol é tão necessária quanto o nevoeiro que a ofusca é fundamental para uma vida um bocadinho mais feliz.

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